Ser Mineiro (Frei Beto)
Como todo mineiro é um pouco filósofo, há um mistério sobre o qual venho há anos especulando: “o que é ser mineiro?”
Das reflexões e inflexões que extraí sobre a mineirice, muitas delas colhidas em filosóficas inscrições de rótulos de cachaça e quinquilharias de beira de estrada, eis as conclusões prévias e provisórias, sujeitas a chuvas e trovoadas, a que cheguei:
Ser mineiro é dormir no chão para não cair da cama; usar sapatos de borracha para não dar esmola a cego; sorrir sem mostrar os dentes; tomar café ralo para esconder dinheiro grosso.
É desconfiar até dos próprios pensamentos e não dar adeus para evitar abrir a mão.
Mineiro pede emprestado para disfarçar a fartura. Se é rico, compra carro do ano e manda pôr meia sola em sapato usado. Mineiro vive pobre para morrer rico.
Mineiro não é contra nem a favor; antes, pelo contrário.
Mineiro fala de desgraça, doença e morte, e vive como quem se julga eterno. Chega na estação antes de colocarem os trilhos, para não perder o trem. Relógio de mineiro é enfeite. Pontual para chegar, o mineiro nunca tem hora para sair. A diferença entre o suíço e o mineiro é que o primeiro chega na hora. O mineiro chega antes.
O bom mineiro não laça boi com embirra; não dá rasteira em pé de vento; não pisa no escuro; não anda no molhado; não estica conversa com estranhos; só acredita em fumaça quando vê fogo; pede no açougue lombinho francês; só arrisca quando tem certeza e não troca um pássaro na mão por dois voando.
Mineiro fala de política como se só ele entendesse do assunto; finge que acredita nas autoridades e conspira contra o governo; faz oposição sem granjear inimigos; gera filhos para virar compadre de político; foge da luz do sol por desconfiar da própria sombra; vive entre montanhas e sonha com o mar; viaja mundo para comer, do outro lado do planeta, um tutu de feijão com couve picada.
Ser mineiro é venerar o passado como relíquia e falar do futuro como utopia; curtir saudades na aguardente e paixão em serenatas; dormir com um olho fechado e outro aberto; acender vela à santa e, por via das dúvidas, não conjurar o diabo.
Ser mineiro é fazer a pergunta já sabendo a resposta.
É ter orgulho de ser humilde. É bancar a raposa e ainda insistir em tomar conta do galinheiro.
Mineiro fica em cima do muro, não por imparcialidade, mas para poder ver melhor os dois lados. Cabeça-dura, o mineiro tem o coração mole. Acredita mais no fascínio da simpatia que no poder das idéias.
Mineiro é isso, sô! Come as sílabas para não morrer pela boca. Fala manso para quebrar as resistências do interlocutor. Sonega letras para economizar palavras. De vossa mercê, passa para vossemecê, vossência, vosmecê, você, ocê, cê e, num demora muito, usará só o acento circunflexo!
Mineiro fala um dialeto que só outro mineiro entende, como aquele sujeito que, à beira do fogão de lenha, ensinava o outro a fazer café. Fervida a água, o aprendiz indagou: “Pó pô pó?” E o outro respondeu: “Pó pô, pô”.
Ser mineiro é saber criar bois, filhos e versos. É ir ao teatro, não para ver, mas para ser visto. É freqüentar igreja para fingir piedade; rir antes de contar a piada e chorar com a desgraça alheia.
Mineiro adora sala de visitas encerada e trancada, na esperança de retorno do rei.
Avarento, não lê o jornal de uma só vez para não gastar as letras, e ainda guarda para o dia seguinte para poder ter notícias. Mineiro não lê, passa os olhos. Não fala ao telefone, dá recado.
Praia de mineiro é barzinho, restaurante, balcão de armazém e cerca de curral. Ali a língua rola solta na conversa mole, como se o tempo fosse eterno. Certo mesmo é que o momento é terno.
Ser mineiro é ajoelhar na igreja para ver melhor as pernas da viúva, freqüentar batizados para pedir votos e ir a casamentos para exibir roupa nova.
Mineiro vai a enterro para conferir quem continua vivo. Nunca sabe o que dizer aos parentes do falecido, mas fica horas na fila de cumprimentos para marcar presença. Leva lenço no bolso para o caso de ter de enxugar as lágrimas da família. Não manda flores porque desconfia que a flora não cumpre o trato e embolsa a grana.
Ser mineiro é esbanjar tolerância para mendigar afeto. É proferir definições sem se definir. É contar casos sem falar de si próprio. Mineiro é feito pedra preciosa: visto sem atenção não revela o valor que tem.
Mineiro é capaz de falar horas seguidas sem dizer nada. Esconde o jogo para ganhar a partida. Cumprimenta com mão mole para escapar do aperto e acredita que a fruta do vizinho é sempre mais gostosa.
Mineiro age com a esperteza das serpentes, mas se veste com a simplicidade das pombas, e encobre suas contradições com o manto fictício da cordialidade.
Mineiro é como angu, só fica no ponto quando se mexe com ele. Desconfiado, retira o dinheiro do banco, conta e torna a depositar.
Ser mineiro é fazer cara feia e rir com o coração; andar com guarda-chuva para disfarçar a bengala; fumar cigarro de palha para espantar mosquitos; mascar fumo para amaciar a dentadura.
Mineiro sabe quantas pernas tem a cobra; escova os dentes do alho; teme rasteira de pé de mesa; toma café ralo para enxergar o fundo da caneca e, por via das dúvidas, põe água e alpiste para o cuco.
Ser mineiro é fingir que não sabe o que bem se conhece.
Mineiro que não reza não se preza. Religioso, na crendice mineira há lugar para todos: o Cujo e a mula-sem-cabeça; assombrações e fantasmas; duendes e extraterrestres.
Pacífico, mineiro dá um boi para não entrar na briga e a boiada para continuar de fora. Mas, se pisam no calo do mineiro, ele conjura, te esconjura, jurado e juramentado no sangue de Tiradentes.
“Minas Gerais é muitas”, como disse Guimarães Rosa. É fogão de lenha e comida preparada na panela de pedra sabão; é turmalina e esmeralda; é tropa de burro e rios indolentes chorando a caminho do mar; é sino de igreja e tropeiros mourejando gado sob a tarde incendiada pelo hálito da noite.
Minas é Mantiqueira e serrado, é Aleijadinho e Amílcar de Castro, é Drummond e Milton Nascimento, é pão de queijo e broa de fubá. Minas é uma mulher de ancas firmes e seios fartos, sensual nas curvas, dócil no trato, barroca no estilo e envolta em brocados, ostentando camafeus. Minas é saborosamente mágica.
Mineiro sai de Minas, mas Minas não sai da gente. Fica uma dor forte, funda, farta e fértil, tão imponderável como o amor místico, onde o coração lateja embevecido por inefável paixão.
Ave Minas! Batizada Gerais, és uma terra muito singular.
(via Consuelo)
Saudade deles
Eu sempre vou pensar o quanto fui precipitada, quando dizia que estavam exagerando e que logo, logo estariam em casa, pra começar tudo de novo. Sempre nos dando preocupações e alegrias ao mesmo tempo.
Estou com tanta saudade..estou nostálgica.
É impossível lembrar deles, sem vincular às imagens tristes da decadência.
É impossível não fazer uma retrospectiva, sabendo que há muitos anos estive nos braços de alguns ou brincando e escalando com outros, e agora eles não estão aqui para discutir as coisa de gente grande, a política da cidade, para me perguntarem sobre a minha vida longe deles e me cobrarem um neto!
Menos bençãos recebidas uma vez por mês. Menos ligações pra saber como estão.
Eu sempre fui tão conformada. Mesmo sabendo que eles tinham medo, eu não tive medo.
Eu fiz companhia, eu emprestei um casaco quando necessário, eu até ajudei a fazer a barba.
E no fim, luvas para tocar-lhes e um adeus (com esperança de retorno). E no fim, tentativa de encontrar assunto, tentativa de manter a memória intacta.
Chamaram meu nome todas as vezes. E eu carregarei, definitivamente, o peso e a satisfação de ser, e não apenas ter sido, o orgulho, a mais velha, a desatenta que sempre os amará.
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Eu sei, mas não devia (Clarice Lispector)
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos
e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduiche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro,
para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na
primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se com a pessoa que a gente ama, a noite ou no fim de semana , não há
muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque
tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.
Vc faz xixi no banho?
Tenho um site muito legal e interessante pra recomendar: http://www.xixinobanho.org.br/
Parece sacanagem, mas garanto que não é. É mais importante do que se supõe.
Preciso de um divã
Minha pretensão não é colocar fim em algo que não começou.
Mas o que fazer quando começamos a sofrer demais, a dormir de menos, a ser emocional demais e racional de menos?
Meu irmão emprestado me disse: “vc tá abafada..”
E eu respondi: “tô precisando de um divã..”
Mas pra quê?
Assim vou ter dinheiro pra viajar? Creio que não.
Assim vou tomar posse dos sentimentos dos outros? Absolutamente não!
Nem mesmo vou poder voltar a ir no meu santo forró de quinta-feira.
E eu li hoje que, “falar de amor não é amar”, pensei – “..ai que bom!”, a melhor parte é que odiar é menos complexo que gostar! Assim eu fiquei bem mais tranquila.
E garanto que pensei em tudo isso enquanto lia as 6 palavras.
Então, o que é que vale a pena?
Continuar a dizer..”você não sabe de nada!”
Ou entregar todos os motivos para gerar desconfiança e questionamentos maiores ainda?
Retrato falado
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Eu não me saí muito bem fazendo o meu..huahuaau







